Gap de gênero e a misandria de Estado: o "tendão de aquiles" da direita brasileira em 2026
- Compreensão do cenário
- Os erros na busca pelo aumento do eleitorado feminino
- Referências
- Notas de rodapé
Há um consenso por parte de cientistas políticos que, ao analisar o cenário eleitoral de 2026, compreendem que o eleitorado que está para definir os rumos do Brasil é o eleitorado feminino, que já compõe quase 53% do eleitorado — 82,5 milhões de mulheres aptas a votar, segundo dados do TSE de janeiro de 2026. No atual momento, marqueteiros, assessores e demais profissionais envoltos do dever de transformar imagens de figuras políticas instruem seus companheiros a usar de pautas feministas, com ou sem a linguagem do feminismo — criptofeminismo, um feminismo que não se manifesta com a imagem e linguagem do movimento, presente até mesmo em círculos antifeministas — para alavancar popularidade entre esse eleitorado. Um verdadeiro equívoco.
O presente cenário que pode ser lido na sociedade brasileira é de avanço da guerra dos sexos, é presente um fenômeno tratado como dialética amigo-inimigo, de Carl Schmitt, na qual uma força política e civil que representa um grupo demográfico conflita com as posições de um grupo de posição antagônica a este, e que então, usa desse conflito de implicação dialética contra um inimigo externo ao grupo para tornar coesa as redes internas — teoria do conflito, de Lewis Coser — para justificar políticas intensas de repressão contra esse grupo antagônico. Nessas posições vemos o movimento de misandria de Estado, promovido por uma rede de aparelhamento feminista com forte ativismo ideológico e político em todas as esferas institucionais possíveis (Estado, setores corporativos, instituições religiosas e até mesmo famílias), em contraponto a uma resposta orgânica e ainda não estrutural: o masculinismo, nos últimos anos apelidado de “Red Pill”, em alusão à pílula vermelha do filme Matrix.
No entanto, essa leitura de mundo implica com a leitura do êmico (olhar interno do grupo “nativo”) do feminismo guiado pela manipulação promovida pelas redes aparelhadas, em princípio pela imprensa (aparelhada) e indústria “cultural”, que narram um mundo no qual os homens são agressores ontológicos, e que, portanto, a existência do gênero homem implica em uma violência existencial contra as mulheres, ou seja, a luta pela igualdade de gêneros é ela constante e eterna, e insuficiente, enquanto houver a distinção de gêneros e que, portanto, não basta a “igualdade” como equivalência, e sim uma matriarcalização da sociedade e das instituições como meio para assegurar que as mulheres terão sofrimento diminuído perante a presença ontológica da violência existencial masculina — presente nos pensamentos e obras de Mary Daly¹ (1978), Shulamith Firestone² (1970), Andrea Dworkin (1987) e Catharine MacKinnon.
Por mais que o feminismo radical e o ginocentrismo ontológico sejam posições diminutas e nucleares na sociedade civil, há uma estrutura de pensamento montada com espaços a essas posições muito bem guardados e privilegiados no mundo secular, assim como nos enclaves desse mundo com as culturas de âmago religioso, que insere nas mulheres moldadas e ensinadas nessa grande estrutura de mundo mitos desse extremo misândrico no subconsciente feminino e coletivo, como os de que todos os homens são estupradores natos, violentadores em potencial, que ocupam cargos de poder de modo parasitário, que tornam o mundo mais inseguro e que impõem ao feminino um sofrimento existencial e ontológico.
Pelo plano do ético (olhar externo ao grupo “nativo”), o homem civil enxerga apenas o plano visível, incapaz de compreender as profundezas do criptofeminismo, observa somente o discurso e não os alicerces ocultos do discurso, vê este uma rede de enganos na mulher moderna — essa conveniente aos abusos, julgamentos temerários contra o homem universalmente — não vê essa rede oculta de conduções ideológicas e deformação do olhar ao homem. Ocorre do homem, primeiro, lidar com riscos e perigos dessas transformações nas relações das instituições com a sociedade a tratar do gênero (universal) homem, então enxergar o plano político do problema de antemão, depois enxerga as nuances do movimento e seu meio de cooptar mulheres por via do apelo ao sentimento do medo, mais adiante percebe ele a rede de solidariedade para com os atos injustos de “reparação” contra o masculino universal incutido nos menores crimes praticados por mulheres contra homens, e por fim percebe a exposição de ideias explicitamente misândricas que não são devidamente tratadas como justificativas para punição às expositoras, a essa altura do campeonato o cidadão, homem, percebeu que as instituições foram aparelhadas. A misandria não é, portanto, combatida pelo establishment, e que se não é devidamente combatida, na lógica dos conflitos políticos modernos, recebe um apoio negativo, isso é, trata-se de uma não-ação que opera como uma ação indireta em auxílio — “quem se cala, consente”. Ao ver essas redes constituídas o ser de gênero (universal) homem se vê sem alternativas além de atuar pela lógica conhecida (do mundo secular e moderno) de buscar no ativismo cívico, com lampejos de expressões de cunho político, uma posição de resistência a essa estrutura de misandrização e matriarcalização das instituições, por essa lógica ainda moderna e secular operam os discursos de viés masculinista.
Um outro olhar entra em jogo, falamos do olhar do político que busca agradar populações inteiras por via de uma transformação de imagem pública, isso é uma grande utopia na esfera política e que os candidatos se propõem a crer, pois na prática tendem a agradar grupos e lutar pela conquista de espaços, inexiste um perfil prático e real de “político unificador” que agrade todos os polos da sociedade fora dos discursos e das propagandas políticas. O político, então, precisa se conectar a esses “mundos” (tribos e grupos) para obter ganhos eleitorais, e ao tentar agradar dois senhores o político pode agradar ninguém, ou, no pior dos casos, ceder pela ambiguidade e dubiedade a um grupo que possui já poder, infiltração em instituições, financiamento apoio político e domínio nos campos de disputa, nesse caso, entre reivindicações masculinistas e feministas, que são inconciliáveis, o grupo com maior atividade política, apoio e poder (feminista) venceria a guerra de braço e colocaria esse político, ou grupo político (partidos, federações, etc.), de joelhos.
Compreensão do cenário
Quando tratamos da “direita brasileira” consideramos um pacote de ideários contidos em um espectro adaptado aos povos do território brasileiro, dessa forma, observamos nesse espectro direcionado os seguintes desejos: 1) valorização de símbolos tradicionais alinhados a uma síntese que constitui a civilização brasileira, portanto, confronta a sanha decolonialista de desconstruir a herança luso e católica; 2) valorização de heranças euro-brasileiras, especialmente luso, em alguns movimentos desse espectro, como o monarquista e o tradicionalista católico, em outros espaços da direita brasileira uma noção mais presente de “integração” está contida; 3) valorização da fé cristã (católica ou protestante), mesmo que dentro de uma estrutura ecumênica, mesmo não-cristãos nesse espectro podem demonstrar simpatia e solidariedade para com os grupos cristãos; 4) de defesa das instituições orgânicas, exemplo a Igreja e a família; 5) do direito de subsidiariedade, isso é, de manter a resolução dos problemas interinstitucionais nas mãos dessas instituições sem que o Estado seja o sumo interventor absoluto, no caso, trata-se do desejo de ter o poder de resolver querelas, nisso inclui desde a defesa ao armamento civil até a liberdade monetária e fim do excesso de programas sociais; 6) de resgate de uma ordem social que traga relações harmoniosas entre as instituições, portanto, legando ao Estado um papel de “regulador”, ao contrário de “interventor”, ainda operando uma lógica na qual busca maior eficiência do Estado, dialogando com posições minarquistas ou mesmo, em oposição, defendendo um “Estado necessário” (máximo) — influência do histórico eficientismo de gerência estatal-militar, getulismo, integralismo e recentemente do bukelismo, de Nayib Bukele — sem capacidades interventivas absolutas; e 7) o desejo de recuo de todas as pautas sociais promovidas pelo ideário decolonialista e de filosofia sadista³, que operam como fundamentos das políticas wokes aplicadas violentamente pelos Estados nacionais desde a década de 1980.
Por certo, no critério de atender esses desejos, os movimentos sociais como o feminismo, racialismo negro e indigenista, movimento LGBTQIA+ e demais outros corpos identitários estão exclusos, entende-se então que todos os que participam desses movimentos e que compartilham bandeiras identitárias para com esses citados jamais votarão em alguém que está no espectro político da direita. Apesar da literatura brasileira de ciência política — Singer (2000), Carreirão (2002), Castro (1994) — apontar para o fato de que a esmagadora maioria dos estudos empíricos não encontram associação sistemática entre ideologia e voto no Brasil (Atlasintel, 2026), há um problema que vem se tornando uma tendência em eleições acirradas no mundo ocidental pelos últimos anos, no caso o fato de que as mulheres tendem a votar em candidatos de esquerda, mesmo as que não são militantes de ideologias de esquerda.
A eleitora genuinamente ideológica que jamais votará no espectro oposto é uma minoria, mas ou é uma minoria que cresce e que define eleições em cenários polarizados, ou há um outro fenômeno que deve ser avaliado, e esse em questão (a segunda hipótese) é a relação do avanço do crescimento exponencial do Estado com a confiabilidade do eleitorado feminino em políticos e partidos de esquerda, mesmo se o agente promotor desse crescimento exponencial for alguém que represente o espectro da direita.
Para gerações nascidas a partir de 1946, mulheres são mais favoráveis à intervenção governamental (Grasso; Shorrocks, 2025), porém, é visto que as mulheres já eram mais favoráveis ao Estado ativo antes do gap moderno emergir, isso é, já havia uma predisposição da mulher ao gosto pelas políticas de esquerda (Van Ditmars; Shorrocks, 2025). São reconhecidas por analistas algumas variantes, Lena Edlund e Rohini Pande (2002) apontam uma correlação entre declínio do casamento e gap político, percebe-se que as mulheres veem redistribuição como seguro contra risco de renda pós-divórcio, independente de quem implementa, o que colabora com a tese de que as oportunidades de trabalho feminino, mediadas pelo Estado de bem-estar, afetaram o poder de barganha familiar e preferências políticas (Iversen; Rosenbluth, 2006).
Na eleição para prefeito de Nova York em 2025, vencida por Zohran Mamdani, as evidências apontam que o voto feminino foi decisivo para o resultado, especialmente entre as jovens. Dados de exit polls indicam que Mamdani obteve desempenho excepcional entre mulheres, alcançando cerca de 84% entre aquelas de 18 a 29 anos e 65% entre as de 30 a 45 anos. Os estudos sobre o eleitorado mostram ainda que as mulheres jovens apoiaram o candidato em proporções significativamente maiores que os homens da mesma faixa etária, aproximadamente 82% contra 65%. Análises jornalísticas contemporâneas reforçam essa leitura, apontando a mobilização feminina jovem como um dos fatores centrais da vitória, contribuindo para um comparecimento recorde de mais de 2 milhões de eleitores. A evidência convergente indica portanto que as mulheres, particularmente as jovens, foram um dos grupos-chave para a vitória eleitoral de Mamdani.
Um caso semelhante em exemplo, porém com resultado exitoso para o espectro da direita, foi a eleição chilena de 2025, que envolveu o católico e direitista José Antonio Kast. A literatura acadêmica e os surveys disponíveis são consistentes em apontar um gap de gênero claro desfavorável a Kast entre as mulheres. Estudos comparativos mostram que as mulheres foram significativamente mais propensas a votar em Jeannette Jara, então candidata pela esquerda, evidenciando uma diferença estatisticamente relevante. Esse padrão aparece também em análises qualitativas, cujos perfis de eleitores indicam que a rejeição à direita no Chile inclui fortemente o eleitorado feminino, especialmente entre mulheres de posições progressistas (Reyes-Housholder; Schwindt-Bayer, 2025). Assim, a melhor síntese com base nas evidências disponíveis aponta que, mesmo Kast tendo vencido a eleição de 2025 com cerca de 58% dos votos totais, seu apoio entre mulheres foi claramente inferior ao obtido entre homens, sendo plausível que o gap de gênero no país tenha tornado sua maioria feminina inexistente ou consideravelmente mais estreita.
Se analisamos friamente o cenário social observamos um estado de terra arrasada: famílias destruídas por divórcios, adultério como uma prática cultural corriqueira amplamente aceita na sociedade civil, explosão do número de mães solteiras — 11,3 milhões em 2022, crescimento de 17,8% em dez anos segundo a FGV-IBRE (Fundação Getúlio Vargas, 2023) — sexo casual como norma de comportamento afetivo-sexual especialmente entre os jovens, casamentos tardios — homens solteiros se casam em média aos 31,5 anos e mulheres aos 29,3 (IBGE, 2024) — taxa de nupcialidade que caiu de 12,2 em 1980 para 5,6 em 2023, menos da metade em quatro décadas (IBGE, 2024), enfoque midiático no fenômeno do feminicídio como instrumento de promoção de um discurso contrário à reação masculinista, aparelhamento do ativismo feminista no meio jurídico — evidenciado pela sanção, em 2023, de lei que concede medidas protetivas mediante simples depoimento da suposta vítima, sem exigência de comprovação de violência, sem necessidade sequer de registro de boletim de ocorrência, tornando o acusado passível de afastamento do lar e proibição de visita aos filhos antes de qualquer investigação ou contraditório (Gazeta do Povo, 2023) — discurso de apoio velado e omissão institucional no combate às falsas acusações de mulheres contra homens, fenômeno reconhecido por delegadas que atuaram em Delegacias da Mulher como “problema real”, mas que permanece sem estatística oficial, sem banco de dados nacional e sem política pública de responsabilização (Câmara Municipal de Curitiba, 2025), e disseminação de discursos misândricos na produção cultural de massa, do entretenimento ao jornalismo, que repetem como axioma a tese da violência masculina ontológica sem que tais discursos sejam submetidos ao mesmo escrutínio aplicado a expressões de sentido oposto.
O cenário, portanto, não é o mesmo de cem anos atrás, não é o mesmo de quando mulheres não exerciam direitos políticos, não tinham acesso ao mercado de trabalho e dependiam juridicamente de seus maridos. As conquistas feministas do século XX foram incorporadas à estrutura institucional brasileira e nenhum candidato relevante do espectro da direita propõe reverter o processo de “misandrização” de discursos presente nas instituições. O que se observa no presente não é uma disputa entre uma estrutura que já ultrapassou a paridade e avança em direção à supressão de direitos masculinos e uma reação orgânica ainda sem forma política consolidada (masculinismo e a “Red Pill”). Apelar para o eleitorado feminino com a linguagem do feminismo institucional, portanto, é ineficaz, assim se tratando de uma capitulação simbólica ao adversário num campo que o adversário domina, usando regras que o adversário definiu e numa língua que o adversário cunhou.
A direita brasileira que adota esse caminho não conquista o eleitorado feminino que já tem endereço fixo à esquerda e ainda sinaliza ao eleitorado masculino não haverá representação para esse eleitorado, demonstrando assim sinal ou de comprometimento em favor do feminismo infiltrado nos círculos conservadores ou de covardia.
Os erros na busca pelo aumento do eleitorado feminino
O exemplo observado nas candidaturas de Flávio Bolsonaro (PL) e das deputadas do partido MISSÃO vem se mostrando um desastre a respeito da busca pelo aumento do eleitorado feminino a suas bases de eleitores.
O caso do partido MISSÃO, vinculado ao Movimento Brasil Livre (MBL), é particularmente ilustrativo das tensões de gênero no campo político contemporâneo. A estratégia de inserção de mulheres jovens para cumprimento de cotas eleitorais e ampliação do apelo junto ao eleitorado feminino ocorre num contexto no qual pesquisas indicam que sua base é predominantemente composta por homens jovens, especialmente entre 16 e 24 anos (AtlasIntel/Bloomberg, 2026), perfil recorrente também em movimentos de direita liberal e digitalizados no Brasil. Esse descompasso entre base social e estratégia eleitoral evidencia um possível gap de gênero interno na própria organização.
O partido e o movimento ao qual está vinculado foram atravessados por uma série de controvérsias públicas envolvendo gênero e sexualidade que impactaram sua imagem ao longo dos últimos anos. Entre os episódios mais conhecidos está o caso de Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, que gerou ampla repercussão negativa após declarações de cunho sexual durante viagem à Ucrânia em 2022. Mais recentemente, veículos de menor circulação e conteúdos em redes sociais passaram a divulgar novas polêmicas envolvendo membros ou figuras associadas ao movimento, incluindo alegações sobre conflitos internos motivados por supostos assédios sexuais, condutas pessoais não condizentes com posição católica e conservadora por parte de uma candidata que possuía uma conta em um site de relacionamentos “sugar” e o suposto uso indevido de recursos para prazeres sexuais em prostíbulos por parte de alguns membros do movimento ligado ao partido, como também o caso da saída de Glenda Varotto, conhecida como ‘Espectro Cinza’ e declaradamente uma “feminista de direita”, noticiada como “acordo por questões pessoais” e outras acusações amplamente replicadas online sem confirmação por fontes jornalísticas consolidadas ou investigações formais, devendo ser tratadas com cautela analítica.
Ainda que a veracidade de todas as acusações mais recentes não seja verificável empiricamente, a recorrência de controvérsias dessa natureza contribui para tensionar a tentativa de reconfiguração do eleitorado do partido em direção a um perfil mais feminino, reforçando a hipótese de que fatores reputacionais e simbólicos ligados a gênero podem influenciar negativamente essa transição.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro, favorito para disputa de segundo turno conforme as pesquisas até então divulgadas, tem investido em um discurso de defesa da representação feminina em postos de comando e órgãos públicos, prometendo 1) muitos cargos para mulheres em ministérios de um eventual governo; 2) apoio à indicação de mulheres para o Tribunal de Contas da União, tendo inclusive preterido o nome do aliado Hélio Lopes em favor da deputada Soraya Santos, declarando publicamente incomodar-lhe o fato de que nenhuma mulher integra o TCU atualmente; 3) uma vice-presidente na chapa, com preferência declarada por perfil conservador e de ligação com o eleitorado religioso, sendo os nomes das deputadas Simone Marquetto e Clarissa Tércio ventilados em reuniões internas, e a senadora Tereza Cristina descrita pelo próprio Flávio como seu “sonho de consumo”; e 4) o voto favorável ao chamado “PL da Misoginia”, aprovado no Senado em março de 2026 com 67 votos a favor e nenhum contra, que inclui a misoginia entre os crimes da Lei do Racismo, com pena de dois a cinco anos — decisão que gerou reação dentro da própria direita e que o próprio Flávio justificou posteriormente como manobra para evitar uma “armadilha do PT”, evidenciando a contradição estrutural dessa estratégia de agrado ao eleitorado feminino dentro do espectro conservador.
Essas ações vêm demonstrando sinalizações de apoio a pautas de reivindicações feministas dentro da esfera institucional, o que pode garantir apoio político interno, mas não reflete em promessas de políticas sociais de apoio à mulher, que, portanto, não convence maior parte do eleitorado feminino que não é ideologizado mas que ainda mantém o voto garantido para Lula. O pior dos casos não é o não-ganho de um eleitorado que só cederá voto à direita por via de um milagre, mas sim a perda de um eleitorado masculino que rejeita o avanço da matriarcalização estatal e da misandria de Estado.
Para melhor dimensionamento do problema enfrentado pela direita brasileira, pensemos nos perfis de homens que percebem falta de representatividade no atual cenário social e político da sociedade brasileira: o pai que paga pensão alimentícia sem ter guarda dos filhos, o homem que percebe a misandria institucional crescente, o jovem masculinista que migra para o discurso Red Pill mediante implicações presentes nos modos de relacionamentos entre homem e mulher no nosso tempo, e o homem religioso (principalmente cristão) e de família que rejeita a matriarcalização do Estado e não se sente representado por um candidato que vota no “PL da Misoginia”.
Do modo que existem fatores que favorecem o gap de gênero de mulheres à esquerda, há também o oposto a respeito dos homens à direita. Um exemplo cá pode ser tomado em cima do fenômeno dos divórcios e das mães solos: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Censo 2022), há cerca de 7,8 milhões de mulheres vivendo com filhos sem cônjuge, contra 1,2 milhão de homens na mesma condição, o que indica que mulheres representam aproximadamente 86% a 87% dos responsáveis monoparentais. Esse quadro é ampliado por estimativas da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), que apontam para mais de 11 milhões de mães solo no país, considerando diferentes arranjos familiares. Embora não exista estatística oficial nacional que discrimine o sexo dos réus em ações de pensão alimentícia, a literatura e a análise estrutural desses dados censitários permitem inferir, de forma consistente, que a maioria dos pagadores tende a ser masculina, já que a guarda cotidiana dos filhos recai majoritariamente sobre mulheres. Assim, ainda que percentuais como “90%” não sejam formalmente publicados em bases administrativas, a assimetria observada em fontes primárias sustenta empiricamente a existência de um gap de gênero relevante na responsabilização parental (IBGE, 2022; IBRE/FGV). Esse mesmo desequilíbrio estrutural que orienta o voto feminino para candidatos e partidos que prometem proteção social e ampliação de direitos opera, em sentido inverso, sobre o eleitor masculino que arca com obrigações crescentes numa estrutura institucional percebida como progressivamente hostil ao gênero homem, tornando-o um eleitorado potencialmente disponível para a direita — desde que a direita saiba a quem falar.
Por lógica, essa assimetria também pode produzir efeitos indiretos sobre preferências políticas, na medida em que políticas sociais voltadas à proteção familiar incidem mais diretamente sobre mulheres, especialmente mães solo. Nesse contexto, é plausível que homens, que não são beneficiários diretos dessas políticas, apresentem menor identificação com esse tipo de agenda, embora tal relação não seja mecânica e dependa de mediações culturais, econômicas e ideológicas.
Mediante os dados correlacionados sobre todas as crises de relação homem-mulher na sociedade brasileira cá apresentadas neste artigo, somados à estratégia de campanha adotada pelo PL, é possível deduzir que o destino da campanha de Flávio Bolsonaro, até o momento, trará a possibilidade de não atrair um eleitorado feminino e ainda afastar o eleitor masculino que rejeita políticas feministas, fazendo este buscar esperanças ou em Romeu Zema (NOVO), Ronaldo Caiado (PSD) e até mesmo em Renan Santos (MISSÃO). Seu principal adversário, Lula (PT), não precisa apelar para discursos explicitamente feministas na esfera institucional, o próprio apenas cumpre o que sempre foi exercido por suas campanhas: infindáveis promessas de programas sociais às mulheres. Enquanto o PT (Partido dos Trabalhadores) exerce uma busca pelo eleitor homem e indeciso que não é ideologizado, observamos o PL (Partido Liberal) correndo atrás de um perfil que possui poucas chances de transferir voto para a direita e afastando um perfil de eleitor que, sim, pode ser significativo para compor seu eleitorado, isto é, o eleitor masculino que pode migrar para a direita é numericamente proporcional ao eleitorado feminino que recebe benefícios sociais e tende estruturalmente à esquerda, portanto os dois eleitorados se equivalem em volume, e dessa forma, é visível que a direita está desperdiçando o que pode ganhar enquanto persegue o que dificilmente conquistará.
Referências
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Notas de rodapé
[1] Em Gyn/Ecology (1978), Mary Daly opera uma inversão sistemática das categorias de pureza e impureza. O patriarcado define a mulher como ontologicamente impura, ao que Daly responde atribuindo ao masculino institucional uma esterilidade constitutiva, os homens descritos como “supremamente estéreis, infinitamente impotentes”, cuja única produção possível é a morte (Cap. 7). A dominação masculina é “ginocida” e avança ainda sobre a consciência feminina anteriormente à sua própria formação como sujeito autônomo, colonizando-a em sua origem, isto é, o mecanismo que Daly nomeia prepossession e que fundamenta a compreensão da violência masculina como ontológica em sentido estrito, anterior e irredutível ao plano do comportamento individual. [2] Shulamith Firestone argumenta que “o objetivo final da revolução feminista não deve limitar-se […] à eliminação dos privilégios masculinos, mas deve alcançar a distinção mesma de sexo” (Cap. I), posição que radicaliza a tese da insuficiência da igualdade formal ao propor a abolição das categorias de gênero como condição de emancipação. [3] Refere-se ao filósofo e escritor francês Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade (1740–1814), cuja obra literária e filosófica tematiza sistematicamente a violência, a dominação e a transgressão sexual como forças liberadoras. Designa aqui como o corpo de ideias que fundamenta a instrumentalização do outro como meio de prazer e poder, como presente em Justine (1791) e A Filosofia na Alcova (1795). A conexão entre o sadismo filosófico e as políticas woke é exposta pelo filósofo italiano Augusto Del Noce (1910–1989), que em Il suicidio della rivoluzione (1978), argumenta que a revolução sexual do século XX culminou numa forma de libertinagem institucionalizada que guarda continuidade com a lógica de Sade.
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